quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pessoas Que Conseguem Nos Fazer Rir Apesar dos Pesares

Sugestão de título - Mara Santos
Autoria do texto - Marilia Bavaresco

Estava no final do semestre. Muitas provas, seminários, cursos, mas Cíntia sempre encontrava um tempo livre para o seu trabalho voluntário. Jamais abriu mão dele, mesmo que fossem poucas horas por semana. Sentia-se revigorada após cada visita às crianças hospitalizadas.
Basicamente o grupo dela se dirigia aos quartos hospitalares infantis autorizados para dar uma espécie de entretenimento, um afago, um carinho para as crianças abaixo de doze anos. 
Quase sempre arrancavam gargalhadas dos pequenos, pois além de serem muito engraçados e falarem a língua da gurizada, tocavam música. E música sempre aproxima as pessoas.
Pois bem, naquela tarde, apesar das provas que tinha para estudar, trabalhos
para concluir, outros compromissos para cumprir ela rumou para o Hospital Geral. Especialmente neste dia uma das mães das crianças em tratamento contra o câncer resolveu fazer uma festinha surpresa para sua filha. Os pequenos que podiam estavam reunidos na salinha de recreação, felizes, com teatro de fantoches, música, brincadeiras.
Cíntia logo percebeu que uma das crianças se mantinha séria, e por mais que a convidassem para participar ela não demonstrava nenhuma vontade de socializar. A mãe incansável tentava com que a filha participasse das atividades, tudo em vão.
A menina se chamava Ruth e tinha quatro anos. No seu olhar sem brilho, a tristeza era evidente. Cíntia chegou perto da menina e ofereceu um dos seus fantoches para ela colocar na mãozinha. Ruth olhou para ela, olhou para o fantoche e o deu para a mãe. Virou o rostinho para olhar fora da janela.
As brincadeiras continuaram e em absolutamente todas as tentativas de Cíntia para incluir a pequena menina, ela não esboçou nem ao menos um leve sorriso.
Cíntia ficou curiosa e perguntou para a mãe há quanto tempo ela estava ali. A mãe respondeu que já fazia um ano e meio entre idas e vindas e a tristeza de Ruth era porque seu pequeno cãozinho Yoshi não podia estar com ela. Eles eram muito apegados, e quando ela tinha que ficar hospitalizada, ambos ficavam tristes e amuados. Ruth tinha um tipo raro de leucemia e poucas chances de sobreviver. Vinha lutando bravamente, mas estava cada vez mais fraquinha, já não sorria e nem brincava mais. Só ficava feliz e descansada quando tinha Yoshi perto dela.
Nesse momento Cíntia teve uma ideia. Foi conversar com a coordenadora do Instituto que era sua amiga. Depois chamou a mãe da menina. 
Já estava quase no final da festinha, o pessoal ia embora, se despedindo das crianças. A aniversariante estava muito feliz. Cíntia se aproximou de Ruth, pediu se podia dar um beijo nela. Ela consentiu, mas não retribuiu. Foi levada para o quarto tão calada e triste como tinha estado o tempo todo.
Inconformada com tamanho peso que a pequena criança carregava, Cíntia foi para casa e pela primeira vez em anos de voluntariado, chorou. Não se conformava de algumas crianças sofrerem tanto com doenças tão incapacitantes.
No dia seguinte, conforme o combinado com a sua amiga do Instituto e os pais da criança, Cíntia voltou para o hospital. 
Entrou no quarto e Ruth a recebeu com a mesma carinha triste, olhar perdido.
Porém, quando Cíntia colocou a pequena caixinha de transporte em cima da cama e dela saiu o diminuto yorkshire Yoshi, uma transformação aconteceu naquele quarto.
Ruth acendeu como uma lâmpada que ilumina a escuridão, como um dia ensolarado depois da tempestade. Yoshi sabia que não podia fazer gestos bruscos sob o risco de machucar Ruth, então se aproximou devagarinho e se aninhou nos braços dela, que ria muito. Um tempo depois a menina jogava uma bolinha de papel e Yoshi trazia para ela, o que provocava as mais gostosas gargalhadas que Cíntia ouviu em toda sua vida.
Naquele dia ela ganhou um beijo de Ruth. Muitos abraços e agradecimentos da família.
Soube um tempo depois que a pequena Ruth não resistira e que Yoshi permanecera com sua amiga no quarto do hospital, devidamente autorizado até o fim. E Cíntia sorriu, porque sabia que tinha dado pelo menos um alento àquela menininha que tão bravamente lutara contra um inimigo muito maior que ela.

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