segunda-feira, 25 de julho de 2016

Um Peido Atravessado

Sugestão de título - Marineide do Prado
Autoria do texto - Marilia Bavaresco

Berilo saiu apressado para a entrevista. Não conseguiu realizar o seu ritual matinal, que fazia metodicamente todos os dias, anos a fio. O despertador não tocou conforme o planejado e quando abriu os olhos mais cedo, percebeu que se não se apressasse perderia a última de uma série de entrevistas para o emprego dos seus sonhos. Há dois meses estava pleiteando esta vaga e chegou o grande dia, onde ele e mais dois concorrentes seriam entrevistados pelo presidente da empresa. Não podia de forma alguma se atrasar... e o dia já tinha começado assim, errado. Seria um sinal? 
Procurou afastar estes pensamentos enquanto corria para a parada de ônibus perto de sua casa. Mas logo ao subir no coletivo sentiu uma fisgada na barriga. Ele respirou pausadamente e tentou conter o anúncio do estrago que viria a seguir. A muito custo manteve-se firme e a dor passou levemente. 
Dez minutos depois desceu na parada próxima ao prédio da empresa e ao colocar o pé no chão, a fisgada voltou com a potência aumentada. Suor escorria pela gola branca da camisa. O calor só aumentava e a sensação de que a qualquer momento o inevitável aconteceria fazia aumentar o seu pânico.
Ao dobrar a esquina, rezando que na portaria do edifício onde ficava a sede da empresa houvesse ao menos um banheiro, ele já caminhava com dificuldade. 
Tinha certeza que a tragédia se consumaria. Era só questão de tempo.
O porteiro desconfiado pediu que ele esperasse para tirar uma foto para o crachá de visitante. Não havia sinal de lavabo, quanto mais um banheiro. Nesse momento outros dois rapazes estavam entrando no elevador e ele reconheceu seus oponentes. Que inveja!!! Por que seu corpo não podia cooperar num momento tão importante como esse? Sentiu pena de si mesmo. 
Estava com as pernas cruzadas se espremendo e a foto ficou horrível, mas mesmo assim o porteiro, achando que ele era portador de alguma Síndrome deixou que subisse para o andar do escritório.
Aguardou minutos que pareciam milênios a chegada do elevador. Veio da garagem e dentro dele estava um senhor de meia idade, com um pós barba muito forte. Berilo, suado, começou a ter náuseas tamanha a força que fazia para não sucumbir à vontade de seu intestino e o asco que sentia daquele cheiro de pós barba.

Neste momento, em que as pernas não mais lhe obedeciam, a vontade de
chorar era imensa, a dor estava cortando as suas entranhas, aconteceu o apagão. 

Mais tarde Berilo acordou numa sala linda, com móveis estilosos, no último andar do edifício. Estava acomodado num sofá preto e foi abrindo os olhos devagarinho. Uma moça estava abanando seu rosto com uma folha de papel enquanto recobrava a consciência. O pânico tomou conta dele. 
Não sentia mais dor. E esse era o motivo do pânico agora. Se não havia mais dor, ele só poderia ter evacuado no elevador, desmaiado. Que vergonha. Virou o rosto levemente e lá estava o mesmo senhor do elevador e os dois oponentes. Todos os três levantaram para ver se ele estava bem.
Constrangido, olhou para suas pernas. Ainda estava de calça, o que era bom. Sentou no sofá. Lhe ofereceram um copo d´água. Não sentiu nada estranho por dentro das calças.
O senhor se apresentou como sendo o diretor da empresa onde Berilo buscava uma vaga, pediu desculpas mas o presidente não viria. Teriam que remarcar suas entrevistas. Sugeriu que Berilo fosse fazer uns exames.
Ao despedirem-se, a moça que devia ser uma secretária, acompanhou-os e Berilo, constrangido se aproximou perguntando o que tinha acontecido.
Ela olhou para ele, colocou uma mão no seu ombro e disse:
- Não te preocupa, foi só um peido atravessado. - e voltou para dentro do escritório deixando Berilo ali, sem ação, sem entender nada, nem imaginar como o tal pum se esvaiu de dentro dele. 
Nunca mais voltou para fazer a outra entrevista.

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