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terça-feira, 16 de junho de 2020

Noites Brancas e A Árvore de Natal da Casa de Cristo

FICÇÃO - NOITES BRANCAS

Autor
: DOSTOIEVSKI, Fyodor


Idioma: PORTUGUÊS 

Editora: EDIOURO


Assunto: Drama


Edição: 1


Ano: 1996 (1848)


ISSBN: 9788500001185


Resenha segundo o Livrandante: “Noite branca” refere-se a um fenômeno comum na Europa, em que o sol praticamente não se põe. Em uma dessas noites, um jovem sonhador se depara com uma linda mulher e se apaixona por ela. Carregada de fantasia e emoção, esta é considerada a obra que mais aproxima o autor do romantismo. Já A Árvore De Natal Na Casa De Cristo é um conto reflexivo, que apresenta a cruel realidade da fome e do frio que assolam os personagens desvalidos.


Minha Opinião: Um livro pequeno com dois contos maravilhosos de Dostoievski. O primeiro sobre a solidão e o segundo sobre a miséria humana. 
Sou muito fã deste maravilhoso e universal escritor e os contos foram escritos um pouco antes da sua prisão na Sibéria, quando acusado de tramar contra o czar (por volta de 1840). 
Dostoivski escreve com paixão, então todos os livros que li desse autor são muito emocionantes. Desta vez não foi diferente.


Nota: ♥♥♥♥♥

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Chapéu Mexicano

CONTOS - CHAPÉU MEXICANO
Autor: HUXLEY, Aldous
Idioma: PORTUGUÊS
Editora: IBRASA
Assunto: drama
Edição: ?
Ano: 1986 


ISSBN: 9788534810029 

Resenha segundo a Lê Livros: O chapéu mexicano – Este volume, contendo seis novelas curtas de Aldous Huxley, pertence à primeira fase do grande romancista e pensador inglês. São contos de extraordinária beleza e simplicidade, já fazendo antever o novelista genial de contraponto.


Minha Opinião: Cada uma das seis histórias contadas nesse livro é mais linda que as outras. Não tem como escolher a que eu mais gostei pois todas são maravilhosas.
Porém vou me arriscar e dizer aqui que "O Jovem Arquimedes" pode deixar o leitor com um nó na garganta no final.
O livro é uma relíquia. Algo que eu não estava esperando. 
Adoro quando fecho a última página de uma obra e penso: "Nossa! Como eu não li isso antes?"
Esse é um dos casos.


Nota: ♥♥♥♥♥

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

O Anjo do Avesso

FICÇÃO - O ANJO DO AVESSO 
Autor: VASCONCELOS, Marcos
Idioma: PORTUGUÊS
Editora: RAIZ
Assunto: Crônicas, contos
Edição: 1
Ano: 2019
ISSBN: 9788553110193


Resenha segundo a Travessa: Há algo sempre à espreita. Algo capaz de nos capturar em qualquer multidão, que não ousamos nominá-lo, embora seja chamado de Morte. Em O Anjo do Avesso, ela é protagonista. Desmistifica medos. Torce, define, encerra, abate. Mas também acalenta: “Começando do fim ao invés do começo, a Morte é um anjo do avesso”

Minha Opinião: Não é porque eu conheço o autor do livro que vou rasgar seda, mas olha, que surpresa boa! Que livro gostoso de ler. Super bem escrito sem ser arrogante. 

Trata de um assunto tabu, que traz incômodo às pessoas, mas com uma leveza tão interessante que é impossível não sentir empatia com os personagens e as histórias.
Obrigada Marcos por ter publicado e compartilhado conosco.
Amei!


Nota: ♥♥♥♥♥

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

TCHAU

CONTOS - TCHAU
Autor: BOJUNGA, Lygia
Idioma: PORTUGUÊS 
Editora: CASA LYGIA BOJUNGA
Assunto: drama
Edição: 19ª
Ano: 2012 
ISSBN: 8589020053


Resenha segundo a Amazon: Tchau reúne quatro narrativas densas, onde - no estilo habitual que já se tornou sua marca - Lygia transita com inteira liberdade entre o realismo e o fantástico. Aqui, ela nos fala de paixão, de amizade, de ciúme e da necessidade de criar.


Minha Opinião: é um livro de quatro contos muito intensos. Especialmente o último que é uma metáfora dos relacionamentos e conta a história de um barco com sentimentos. 
Apesar de ser um livro direcionado para o público juvenil, recomendo a leitura em qualquer ponto da vida, porque Lygia consegue nos fazer pensar na fragilidade de nossas relações e nossa existência.


Nota: ♥♥♥♥♥

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Hospício de Muskov

FICÇÃO - O HOSPÍCIO DE MUSKOV
Autor: Diversos
Idioma: PORTUGUÊS 

Editora: WISH
Assunto: Contos de Suspense
Edição: 1 
Ano: 2017 
ISSBN:

Resenha segundo a Editora Wish - Inaugurado em 1812 e destruído após a guerra, em 1945, o Hospício de Muskov foi palco de atrocidades, assassinatos, muito medo e sofrimento. Fundado por um psicólogo húngaro, o lugar era conhecido como centro de referência para tratamentos psiquiátricos. Em uma época de pouca tecnologia, buscava-se a cura através de métodos cruéis, utilizados sem restrição. Um diagnóstico precipitado era suficiente para levar uma pessoa saudável às portas da insanidade. Livre-se dos preconceitos e mergulhe nas profundezas da mente humana — um lugar onde muitas vozes se misturam, quebrando o tecido da realidade e tornando a verdade indistinguível. Psiquiatras, enfermeiros, enfermos - todos eles têm uma história sobre este lugar. Uma história que nos leva à decadência do Hospício de Muskov.

Minha Opinião: Uma das organizadoras e escritora é uma amiga gateira de longa data. Quando divulgou que lançaria o livro, pedi para comprar uma cópia.
Me surpreendi com a qualidade dos contos, da edição, da maneira impecável como foi estruturada essa coletânea.
Confesso que o assunto "doenças psiquiátricas" mexe muito comigo e a cada texto parecia que os autores conheciam mesmo o mundo complexo da mente humana perturbada. Super recomendo.


Nota: ♥♥♥♥♥

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Idade Chega...

O cara de quase meia idade estava apresentando alguns sinais da velhice, muito embora não se apercebesse disso. Esquecia coisas, apareciam uns fios brancos no seu cavanhaque e em outras partes do corpo, assim por diante... 
Um dia desses ele foi num bar com sua bike, como costumava chamar sua bicicleta. Amarrou-a na lixeira na frente do bar e lá ficou bebendo com seus amigos. 
Bem mais tarde foi para casa. 
Duas outras vezes na mesma semana ele esteve no mesmo bar, encontrando outros amigos. No mesmo lugar onde tinha amarrado a sua bike, tinha outra, nas duas vezes. 
Passou-se a semana, passou o final de semana e na semana seguinte, depois de parar a chuva que não dava trégua há dias na cidade, ele decidiu ir de bike pro seu compromisso. Foi no bicicletário do prédio e nada da sua preciosa. 
Foi aí que ele se deu conta que a bike dele era aquela que continuou amarrada no bar há mais de uma semana... na chuva, no relento, sofrendo até tentativa de assalto. 
Ao chegar no local, constrangido, foi lá explicar pro dono que era dele a magrela abandonada. 
Mas duro mesmo está sendo aceitar que está ficando velho... ;-)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Cueca


Todo dia um "causo" onde conto o milagre mas não o santo...
...
Um conhecido meu, metido a galã de rodoviária, acordou atrasado e na pressa vestiu a calça que tinha tirado no dia anterior. Chegou no serviço e correu para seus afazeres que consistiam basicamente em visitas internas na empresa atendendo usuários de computador.
O vivente andou pra cima e pra baixo, correndo para lá e para cá quase até meio-dia, quando resolveu ir no banheiro.
Sentado no vaso ele viu que tinha algo branco pendurado na perna, no lado de fora. Seria um pano? Uma toalha? Um guardanapo? 
Não, era uma cueca. Uma cueca dele... e um filme rodou na sua cabeça: na noite anterior por preguiça tinha tirado tudo junto e jogado no lado da cama. De manhã vestiu a calça com a cueca escondida na perna por causa do atraso. 
A cueca desceu e ele arrastou aquilo por toda manhã e ninguém avisou... 
A vergonha foi tanta que até hoje ele tenta lembrar com quem falou e em quais salas esteve, sem sucesso.

A Menininha - II


O "causo" de hoje, lembrando que são inspirações baseadas em fatos que podem ou não ter ocorrido. 
...
Era uma vez uma menininha por volta de cinco anos, daquele tipinho bem irritante de criança. 
O pai da menininha era bancário e tinha um especial apego ao seu carro. Todo dia depois do almoço e da janta ele saia discretamente para analisar a lataria, se tinha algum arranhão.
Num dia bem frio, daqueles frios que só acontecem na serra gaúcha, a mãe da menininha precisou ir na farmácia longe várias quadras de casa.
Colocou o filho bebê e a filha no banco traseiro e saiu, com cuidado, de carro.
Quis o destino que a mãe, ao estacionar na diagonal em frente à farmácia, atropelasse um coqueiro que se atravessou no canteiro na frente dela.
A mãe fez mil recomendações para a menininha, pedindo que deixasse o pai almoçar - ele sempre ia para casa fazer as refeições - e depois ela contaria. Caso contrário ele perderia o apetite e ficaria com fome o resto do dia. A menininha concordou.
Chegaram em casa, a mãe colocou o carro amassado na garagem e voltou a recomendar que a filha não falasse nada.
Almoço servido, barulho no portão e a menina sai correndo para receber o pai.
- Pai, pai, a mãe vai te contar depois do almoço que bateu o carro na árvore...
😖😖😖😖😖😖😖

A Menininha


No conto de hoje agreguei três meninas numa historinha só.. qualquer
semelhança é era coincidência. Ou não.

...
Havia uma outra menininha de uns 3 anos cujo apelido carinhoso era draga. Ela comia tudo. Comia até terra e talco...
Isso se tornava por vezes perigoso, porque o que ela engolia não dava só dor de barriga. Incontáveis vezes ela foi parar no hospital. 
Era um perigo pois certa feita a barriga dela estava cheia de moedas e se um bandido soubesse...
Numa das vezes ela engoliu uma bexiguinha de aniversário e quando saiu a mãe se assustou pensando que eram vermes...
Noutro dia ela foi com sua família conhecer uma nova priminha que nascera em outra cidade, e na mesa do almoço ela começou a ficar roxa, azul... viraram a pobrezinha de ponta cabeça e ela colocou um ovo pela boca. Tinha uma bandeja de ovos cozidos na mesa e sem ninguém perceber ela passou a mão num e engoliu inteiro.
Mas essa gula não se restringia a alimentos. Numa tentativa de provar o gosto de uma sombrinha, ela fincou o cabo de uma na parte de baixo da boca que só não saiu por baixo por causa da pele... passou uns meses com papo preto de sapo devido aos pontos e o machucado...
Mas o tempo passou e quem vê a mulher estilosa de hoje não imagina a fome que passou no seu passado... 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

The Snows of Kilimanjaro

FICÇÃO - The Snows of Kilimanjaro and Other Stories
Autor: HEMINGWAY, Ernest 
Idioma: Inglês 
Editora: VINTAGE BOOKS-UK 
Assunto: Contos 
Edição: 1 
Ano: 1994 
ISSBN: 0099908808 

Resenha segundo a Livraria Cultura - Spare, powerful, tough - these early Hemingway stories are in part autobiographical and totally convincing in their realism. Men and women of passion and action live, fight, love and die in scenes of dramatic intensity. From haunting tragedy on the snow-capped peak of Kilimanjaro to brutal sensationalism in the bullring; from rural America with its deceptive calm to the heart of war-ravaged Europe, each of the stories in this classic collection is a feat of imagination, a masterpiece of description. 

Minha Opinião: Li bem devagar. Um, por causa do idioma. Tive que buscar o dicionário várias vezes. Outra, até o terceiro conto, eu, bestamente buscava uma conexão entre eles. E não existe conexão alguma. São histórias secas, curtas em que duas ou três descrições inserem o leitor no contexto, na cena em que ocorre. Demorei a ler os doze contos porque sempre leio um livro em outro idioma paralelamente à leitura principal. Como tinha que voltar algumas vezes e reler, ou reinterpretar com dicionário, levei mais tempo do que gostaria. Recomendo. 

Nota: ♥♥♥

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Dentista

Sugestão de título - Sandra Mara Dozzi
Autoria do texto - Marilia Bavaresco



Achei bem mais fácil desenhar que escrever...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Convivência Nas Ruas Com o Ser "Nada Humano"

Título sugerido por Alberto Tielka. 
Texto redigido por Marilia Bavaresco. 

"Muita paciência!" pensava ele naquela manhã abafada e chuvosa de segunda-feira. Saiu de carro sem café e atrasado para o trabalho. Ao chegar na esquina de casa, o motor parou. Esperou uma hora pelo socorro do seguro. Carro levado para oficina. 
Estava indo a pé para o ponto de táxi quando um ônibus passou numa das dezenas de poças d´água e ele tomou um banho de esgoto.
Resolveu ligar pro serviço para avisar o motivo do atraso. Telefone sem rede...nem dados. Quando largou no bolso, caiu no chão. Espatifou todo o aparelho.
Depois de juntar o que sobrou, avaliou que devia ir para casa. Ao chegar no seu prédio não encontrou sua chave e o porteiro não estava no seu posto. Chamou pelo interfone e a empregada não atendeu. Resolveu esperar algum vizinho sair para poder entrar. Depois de uns quinze minutos, uma senhorinha saiu para levar o cachorro para fora. Abriu o portão para ele e puxou papo lenga-lenga por uns dez minutos. Enquanto falava com a idosa o cachorro fez xixi na sua perna.
Subiu as escadas até o sétimo andar porque o elevador estava em manutenção. A empregada demorou uns vinte minutos até abrir a porta por conta do volume do rádio.
Tomou um banho de água fria porque não tinha gás, se vestiu e decidiu sair de novo rumo ao escritório.
Ao abrir a porta do apartamento o gato fugiu escada acima. Saiu atrás do gato até o último andar. Pegou o bichano, desceu e a porta estava fechada de novo, som a todo volume.
Quase espancou a porta mais uns quinze minutos até a empregada surpresa abrir para ele. 
Pegou suas coisas, fechou a porta, mas desta vez estava com a chave.
Ao sair da portaria do prédio, percebeu que a chuva passara e o sol estava
rachando. Começou a suar e ainda estava com o guarda-chuvas gigantesco na mão. Azar.
Continuou até o ponto de táxi. Não podia chamar Uber sem celular. No ponto um aviso: paralisação dos taxistas por tempo indeterminado em protesto contra o Uber e falta de segurança. Era o que faltava...
Foi até a avenida e pegou uma lotação. Não tinha lugar, o que não era permitido por lei, mas devido à falta de transporte nesse dia foi liberado. Os passageiros se apertando e um senhor com mau hálito bem na sua nuca. Impossível respirar. Desceu umas duas paradas antes do ponto desejado porque ia vomitar.
Meio zonzo foi caminhando em direção ao prédio onde ficava o escritório. Nada pior poderia acontecer... ou poderia?
Estava tão distraído que ao cruzar a rua transversal, uma van quase bateu nele
freando bruscamente. O motorista desceu injuriado, xingando e com um cassetete na mão. Gritava que a convivência nas ruas com o ser "nada humano" estava tirando a sua sanidade e batia com o cassetete no chão próximo a ele.
Neste momento tudo escureceu.
Acordou numa cama de hospital. Estava amarrado. 
Dias depois quando o efeito dos remédios amainou seu péssimo estado nervoso, ele lembrou o ocorrido: arrancara o cassetete do motorista indignado, bateu muito nele, tirou a própria roupa e correu pelado em meio ao trânsito. Chamaram a SAMU que o sedou, pois estava fora de si. Assim permaneceu desacordado por uma semana internado numa clínica psiquiátrica.
Ao sair após a alta, voltou para o serviço. Tinha virado "meme" na internet devido às filmagens dos transeuntes no fatídico dia do seu colapso nervoso. 
Seus colegas todos foram cumprimentá-lo, mostraram as dezenas de vídeos, recebeu ligações de canais sensacionalistas para entrevistas.
Pediu demissão na mesma semana, pegou a rescisão e foi viver na beira do mar, numa praia quase deserta. Virou pescador e vive sozinho... e feliz.





quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A Mariposa e a Penúria

Título sugerido por Pablo Klein
Texto escrito por Marilia Bavaresco

Jorge estava inquieto. Enfim chegara o dia da audição e ele estava à beira do
pânico. 
Tanto estudo, tanto treino, tantas coisas deixadas para trás em detrimento de um sonho... será que valeria a pena? 
Quando chamaram seu nome, ele respirou fundo e caminhou em direção ao palco. Estava tremendo. Os jurados estavam sentados logo na primeira fileira do teatro, um metro abaixo do nível dele. 
O professor de música da universidade federal, pediu para ele se apresentar e dizer o motivo pelo qual estava buscando a vaga de cantor solista na nova peça que seria apresentada pela instituição.
Timidamente Jorge se apresentou, disse que fazia Letras e Filosofia na universidade, mas que seu grande desejo era cantar. 
Um segundo jurado perguntou o que ele cantaria. Ele disse que interpretaria o sucesso "A Mariposa e a Penúria" do famoso músico Pablo Klein, de quem era fã inveterado.
Os jurados ficaram pasmos pois a canção era complicada de se interpretar, mas elogiaram a coragem de Jorge.
Um pouco antes de soltar o som, em um lapso de segundos, passou um filme na cabeça do nervoso rapaz.
Humilde, vindo do interior, morador da casa do estudante, sempre batalhou muito para conseguir atingir seus objetivos. Fazia as cadeiras dos dois cursos que frequentava e ganhava uma bolsa auxílio que permitia pelo menos sanar suas necessidades básicas. Nada mais que isso.
Sempre que tinha alguma roda de amigos, ou uma festa, chamavam Jorge para cantar. Sua voz era grave, bonita e "macia" como diziam. Quem sabe um dia ele pudesse investir em aulas de canto para aprimorar e tal. 
Durante esse tempo que ele estava na cidade (quase dois anos) não perdia as apresentações públicas de música, fossem quais fossem. Se encantava muito especialmente com a música clássica, mas cantava qualquer tipo de canção.
Seus pais haviam morrido quando ele era pequeno e o menino Jorge tinha sido criado pela madrinha muito pobre e nunca abandonara a vontade de ir mais além. A sua tia e as amigas dela, costureiras duma fábrica de roupas, falavam que Jorge parecia uma uma lagarta, fechadão, ninguém podia encostar, até parecia meio antissocial. Na verdade, ele estudava em todo tempo livre que tinha e a fama veio daí. 
Quando completou 17 anos e acabou o ensino médio, de cara passou no ENEM para o curso de Letras que, instantaneamente começou a cursar. Devido à sua própria penúria ele foi aceito na casa do estudante na capital e recebeu o direito à bolsa integral. Um ano depois ingressou no curso de filosofia e agora fazia os dois ao mesmo tempo.
Obstinado, ele queria se tornar mariposa, não ser mais uma lagarta, como dizia sua tia. Cantava sempre que podia e um colega sugeriu que ele se inscrevesse para ser solista do concerto da universidade. Claro que estariam só os estudiosos e gabaritados concorrendo, gente muito boa, mas não havia pré-requisitos. Precisava apenas apresentar uma música. 
Escolheu "A Mariposa e a Penúria" porque tinha tudo a ver consigo mesmo e a dificuldade talvez elevasse um pouco sua nota.
Saiu do transe quando a música começou ecantou como se não houvesse amanhã. Quando acabou, os jurados aplaudiram em pé.
Os candidatos que já haviam se apresentado esperavam numa salinha adjacente. No final todos foram chamados ao palco e o júri falou um pouco de cada um. A maioria foi elogiada, mas Jorge foi mais ainda. Ele estava certo que conseguiria a vaga. Só que o escolhido foi outro. 
Saiu cabisbaixo, odiando ter tido aquela impressão de que estava com a vaga na mão... criar expectativas era uma droga. Quando estava fechando a porta alguém o chamou.
Era um dos jurados que também era dono de uma produtora musical. Ele disse que tinha ficado impressionado e que o papel para a peça seria pouco perto do que Jorge poderia alcançar com sua voz. Se ele topasse, poderia procurá-lo no dia seguinte, no endereço de sua produtora.
Resumo da ópera: hoje Jorge é um cantor e intérprete de alcance nacional, faz parceria com seu ídolo Pablo Klein e os dois deixaram de ser apenas lagartas, viraram mariposas dando risada da penúria que passaram outrora.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Desgaste da Tramela

Sugestão de título - Verônica Kappel
Autoria do texto - Marilia Bavaresco

Dogo era um rotweiller. Como todos os cães do mundo que tinham um dono, ele vivia com uma família humana, comia boa ração, fazia suas necessidades no pátio e dormia numa casinha na frente da casa. 
A família, assim como todos os humanos, nem imaginava que o cão, assim como todos os outros cães era capaz de se comunicar, de pensar e agir e só não dominava o mundo por não ter dedos opositores (igualzinho aos felinos).
Dogo estava apaixonado pela poodle gigante Miranda que morava com sua família humana na casa da frente. Parecia que ela também estava interessada então o chiuaua Pingo da casa do lado resolveu marcar um encontro entre os dois.
E seria naquela noite, assim que os humanos fossem dormir.
Miranda tinha seus métodos para escapulir de casa, mas Dogo era um cão de guarda. Estava num dilema existencial muito grande porque tinha que zelar pelos seus humanos. Se ele saísse da casa pode ser que algum malfeitor se aproveitasse. Dogo não era mau, mas metia medo pelo tamanho e compleição física.
Pingo se comprometeu em ficar de guarda enquanto eles estivessem no encontro então Dogo relaxou. 
Chegada a hora do encontro, depois da meia-noite, Dogo abriu o portão com o focinho, mas devido ao desgaste da tramela, assim que saiu, a portinhola ficou entreaberta e não trancou. 
Um bandido que estava de tocaia nas redondezas esperando para por em prática suas maldades, viu que o cão grandalhão aparentemente fugira de casa e o portão estava aberto. Era a chance de depenar mais humanos descuidados.
Ele foi se aproximando do pátio, passou pelo portão, que também não fechou. Quando ele se preparava para subir pela grade que ia para o segundo andar, o pequeno chiuaua começou a latir esganiçadamente como todo o chiuaua faz. Uma luz acendeu. Mais outra luz. O ladrão pulou no chão e quebrou o pé. Pingo latia enquanto os humanos chamavam a polícia. O pequeno chiuaua correu para sua casa.
Tudo quase voltou ao normal. Porém, Dogo não estava em casa. A família estranhou, procurou na redondeza e nada do grandão aparecer. Achavam que alguém pudesse ter aberto o portão e deixado ele fugir de propósito. Não voltaram a dormir naquela noite... pelo menos até a hora que Dogo apareceu parecendo sorridente, e deitou na soleira da porta da frente.
No dia seguinte Pingo contou o que tinha acontecido e o grande cão se sentiu humilhado e triste. Justo quando a família precisou, ele não estava ali. 
Nesta mesma noite outro bandido que chegou na vizinhança, desconhecendo Dogo, viu que tramela do portão não fechava. Resolveu entrar. Quando tentava subir a mesma grade que outro malfeitor tentou subir, foi abocanhado pelo bocão de Dogo que só soltou o bandido com a chegada da polícia.
Dogo se sentia satisfeito. Cumprira seu papel!
A partir dali, todas as noites Miranda vinha para o pátio dele, pela facilidade de entrar pelo portão. Santa tramela!!! 
E os dias passavam felizes.
Mas a alegria deu lugar à preocupação quando uns dois meses depois Miranda não apareceu e o vizinho, dono da poodle entrou na casa com cara de poucos amigos para conversar com o humano do grande cão.
Quando ele foi embora, seu dono correu para ele e Dogo pensou que ia ser castigado. Ao invés disso ganhou um osso gigante e muito carinho. 
Ele não entendia direito o que humanos falavam mas pareciam felizes e diziam algo assim:
- Parabéns Dogo, você é papai de dois meninos e duas meninas!!!!!!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Roupa Nova

Sugestão de título - Marylise Bender Garcia
Autoria do texto - Marilia Bavaresco

Renata era roqueira. Ela ia a todos os shows que pudesse, especialmente aqueles grandes, ou festivais onde seus ídolos se apresentariam. Já tinha viajado para fora do país inclusive, só para poder prestigiar algumas bandas.

Ela jamais escutava outro tipo de música que não fosse o bom e velho rock´n roll. Aturava alguns tipos de jazz e era isso. Mais nada. Absolutamente nenhuma variação. Evitava inclusive de frequentar lugares com música que não fosse da sua "praia".
Ocorre que o destino caprichoso armou para que ela se apaixonasse pelo colega de serviço, o Arthur que adorava bossa nova e MPB, gêneros que ela decididamente não escutava.
O casal começou a se conhecer e a cada dia que passava, Renata se apaixonava mais. Arthur era inteligente, carismático, bonito, inteligente e ela achou que o detalhe da música não atrapalharia. Ela achava...
Como seus amigos eram basicamente roqueiros também, os problemas começaram a surgir quando Arthur começou a interagir com eles.
Num final de semana combinaram de acampar com dois casais amigos. Quando tudo estava quase pronto no tal acampamento, Arthur colocou o som bem alto: Tom e Vinícius. Os amigos se olharam e com o passar do tempo aquilo foi irritando a todos. Eles não aturavam mais escutar aquela música. Resolveram trocar o som e quando os primeiros acordes de War Pigs saíram dos alto falantes, Arthur se fechou. Assim como eles não aturavam a música de Arthur, ele não engolia aquela "barulheira" como ele mesmo dizia. Ficou um clima meio estranho todo o final de semana. Situações como essa começavam a incomodar o casal.
Renata então, evitava levar Arthur onde sabia que ia rolar sonzeira, mas estava se distanciando da sua turma que ela gostava tanto por conta disso. Quando saiam, para evitar brigas com seu amado, ela se resignava a escutar até o chatérrimo João Gilberto.
Com o tempo decidiram morar juntos. Os amigos de Renata não curtiram a ideia mas como a amiga parecia feliz, nem falaram nada. 
Arthur aparecia todo santo dia com mais e mais músicas que ela detestava. Começava de manhã, antes do café. Ele acordava junto com ela e enquanto ela estava no banheiro ele ligava o som, com suas Elis Regina, Gal Costas, 14 Bis e por ai afora.
O tempo passou e num dia em que ela estava especialmente mau humorada, gripada, menstruada, ele apareceu com a novidade: iriam num show surpresa de noite. Ela pediu de quem era e ele não falou. Pelo menos seria perto de casa, ela pensou.
Chegada a hora de sair, a campainha tocou e era a sogra dela. Arthur convidou a mãe para ir no show com eles? Como assim? Nunca iam a shows e quando resolviam ir tinham que levar a velha... a irritação de Renata estava no limite do limite.
Saíram a pé, estava chuviscando e ela se sentia febril. Mas foram até o local do show e quando se aproximaram, o público era todo de casais, gente que certamente não gostava de rock como o Arthur, muitas senhorinhas... 
Na fila ela descobriu que o show era do Roupa Nova! Argh! Nada podia ser pior que um show do Roupa Nova, com a sogra, ela gripada, com tremendo mal estar... mas descobriu que estava enganada logo que o pensamento passou pela sua cabeça.
Na fila do lado estava a ex de Arthur, com o novo namorado. Ela abanou freneticamente para eles, ignorou solenemente a Renata, abraçou muito a ex sogra e foram papeando cada uma na sua fila. Arthur, alheio a tudo isso, parecia achar a situação normal.
A gota d´água foi quando descobriu que seus assentos eram ao lado da ex, no gargarejo do show.
Ela pediu licença, foi para casa, arrumou suas coisas e até hoje o Arthur não sabe - ou finge que não sabe - o que aconteceu.
Renata está namorando uma colega do serviço, igualmente adoradora de rock´n roll e não perdem nenhum festival.
Arthur, voltou com a ex e levou a mãe para morar com eles.




quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Coração de Menina

Sugestão de título - Tatiana Rosa
Autoria do texto - Marilia Bavaresco


Dona Leocádia não era uma vó comum. Ela amava muito os netos, mas não fazia deles a sua prioridade de vida. Para ela, o mais importante era manter-se saudável, com a cabeça boa para não incomodar ninguém. Um ideal que ela perseguia com afinco.
Sendo assim, uma vez por mês, além de suas atividades que eram muitas, ela ia no baile para terceira idade. Neste dia ela se maquiava, se arrumava e parecia uma garota de quinze anos, tinha um verdadeiro coração de menina.
Num desses dias de baile, durante a tarde, Dona Leocádia recebeu uma ligação:
- Alô? Eu gostaria de falar com a Dona Leocádia.
- Quem gostaria?
- Nestor. Diga que é o Nestor.
- Ela não está. E nem sei que hora vai chegar. - desligou o telefone, irritada.
Poucas coisas faziam a senhorinha ficar zangada. Uma delas era o Seu Nestor. Um idoso que se achava, segundo ela, a última bolachinha recheada do pacote. Vivia fazendo musculação, correndo, cuidando do corpo e dando em cima de todas as mulheres que olhassem para ele. Nos últimos tempos começou a frequentar os bailes e perseguir Dona Leocádia que era muito bonita e vistosa.
O pior era que ele, nos dias de sol, sentava numa cadeira dobrável só de calção e tênis na Redenção bem onde ela passava para fazer sua caminhada. Dona Leocádia estava pensando em mudar o trajeto só para não cruzar com o Seu Nestor, "aquele inconveniente" pensava ela.
Ela gostava de ir pro baile e dançar. Lá de vez em quando ela trocava um chamego mas não passava disso. E o Seu Nestor desde que a conheceu, ficava insistindo para saírem, para irem ao cinema, para jantarem. No baile ele tirava ela para dançar e ela ia.... uma vez, mas só porque a dama segundo mandam os bons costumes não pode recusar, tem que dançar ao menos uma música com quem pedir.
Ela não entendia porque essa insistência do Seu Nestor a irritava tanto. Sendo assim, depois dessa ligação, ela iria caprichar, colocar o melhor vestido, deixar o cabelo e a maquiagem impecáveis, só para dançar com os outros na frente daquele velho chato.
Chegada a hora, frio na barriga fora do normal. Entrou no baile, foi para a mesa de sempre com as amigas, procurou Seu Nestor com os olhos e não encontrou.
Começaram as danças, Dona Leocádia como sempre não parava sentada. Alguns pé de valsa conseguiam mais que uma dança, e o tempo ia passando. Ela não queria mas estava estranhando a ausência do chato do Seu Nestor. 
Voltou para a mesa e assim que serviu seu guaraná, apareceu aquela mão, aquele perfume que ela conhecia pedindo uma dança. Quando ia olhar para cima pronta para resmungar, percebeu que Seu Nestor pediu à amiga dela para dançar. E foram... quase gastaram o salão. Dançaram várias músicas.
Seu Nestor nem olhou para Dona Leocádia.
E isso se repetiu por uns três bailes. Cada baile novo, nova companheira de dança. E ele parecia nem saber da existência da jovial senhora.
Ela começou a sentir ciúme. Sim! Ciúme... falta da atenção desmedida que ele antes dava para ela. Nem no parque naquele horário ele aparecia mais. 
Tomou coragem, num outro baile no intervalo das músicas e procurou Seu Nestor. Perguntou:
- Seu Nestor, por que o senhor está me ignorando?
- Olha Leocádia, eu desisti. Você é tão linda, tão querida por todos. Não iria dar atenção para qualquer um com eu. Resolvi investir em mim e no pouco tempo que tenho pela frente.
- Se você quiser eu danço hoje, Nestor.
Dito isso, ao recomeçarem as músicas, os dois começaram a dançar e quando passaram pela mesa onde estavam as amigas da Dona Leocádia, ele deu uma piscada para elas que fizeram sinal de positivo e bateram palminhas. 
Ele tinha combinado com as amigas a artimanha de ignorar Dona Leocádia um tempo e elas toparam porque faziam gosto de unir esse casal. Dona Leocádia, intimamente intuía sobre a conspiração, mas admitiu que gostava do Seu Nestor. 
Hoje quando os netos vão visitar a vó, encontram também um avô adotivo saudável e bem disposto, carinhosamente apelidado de vô Gurizão.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Assombrações

Título sugerido por Denise Rosa
Texto redigido por Marilia Bavaresco.


Gabriela estava realmente assustada. Precisava de uma resposta e essa era sua última tentativa. Já tinha tentado de tudo: centro espírita, umbanda, pai de
santo, tabua ouija, cartomante... mas agora estava decidida. Procurou um psiquiatra porque estava enlouquecendo. Remoía tudo que tinha que falar para o médico.
A primeira vez em que vira a assombração, estava num jantar com amigas num restaurante. Ela estava de costas para a parede e já tinha tomado algumas margaritas, mas quando aquela figura curvada e velha, mal vestida atravessou o salão em busca do banheiro do outro lado, ela parou. Estranhou. Levantou de sopetão e foi atrás da "aparição". Só que não havia ninguém no banheiro. Voltou pra mesa e tinha certeza que a visão tinha sido resultado do álcool. A amiga que estava do seu lado não tinha visto nada estranho. Esqueceu.
A segunda vez foi no dia seguinte, à tarde, quando estavam ela e as amigas na praia, sob o guarda sol, curando a ressaca. Não era possível, a mesma mulher estranha, com a mesma roupa, curvada caminhando em direção ao outro lado da orla. Quando ela chamou as amigas para olharem, a velhota tinha sumido. Ela sentiu uma palpitação estranha. Começou a se preocupar, já que desta vez estava sóbria.
No primeiro dia de aula do semestre na faculdade, quando estava sentada no saguão com seus colegas no intervalo, do nada surgiu a mesma pessoa, igualmente encurvada, igualmente estranha e assustadora. Dessa vez ela olhou para o grupo. Gabriela chamou a atenção de alguns colegas mas ninguém viu nada como de costume. 
Foram muitas outras aparições, cada vez mais frequentes.
Mas a mais estranha delas aconteceu na feira perto de sua casa. Estava escolhendo alguns legumes na banca dos pimentões e a mulher assombrada parou do lado dela. Olhou os legumes, olhou para ela e saiu em disparada. Em meio àquelas pessoas Gabriela saiu correndo atrás para ver se
a alcançava e quando se deu conta, estava como uma doida, toda descabelada gritando para segurarem a assombração. Todos se afastavam, cochichavam achando que Gabriela estava em surto. Envergonhada, ajeitou o cabelo, virou as costas e foi para casa, querendo desaparecer. Nem sinal da senhora do além.
Gabriela em muitas dessas ocasiões tentava que outras pessoas lhe dessem atenção, mas quando davam, a assombração tinha sumido.
Hoje ela iria relatar ao médico todas as vezes que lembrava da figura sinistra ter cruzado seu caminho nestes últimos meses. Não aguentava mais a tensão. Já saia na rua imaginando que a senhora assombrada iria cruzar seu caminho em qualquer lugar. Só ficava sossegada sozinha porque sabia que a assombração preferia locais públicos, lugares com muita gente. Estava se isolando para ter um pouco de paz, mas começou a se deprimir com isso. Queria solucionar o problema, mesmo que fosse diagnosticada com algum transtorno de personalidade. Mesmo que precisasse de remédios.
Ali, sentada na cadeira de um consultório, ela suspirava e tinha certeza que estava doente. Alguma coisa não estava bem na sua cabeça. Escorreu uma lágrima. Depois outra... tentou se controlar. 
De repente a porta do consultório abriu e o médico colocou a cabeça para fora, e chamou a secretária. Ela entrou na sala e logo saiu. Ligou para alguém e alguns minutos depois apareceram dois enfermeiros.
A secretária olhou para Gabriela da sua mesinha e disse baixinho:
- O doutor já vai te atender. Essa paciente que está com ele precisa ser medicada e ficar em observação por isso atrasou um pouco seu horário. Desculpe.
- Não tem problema - disse desanimada.
De repente a porta do consultório abriu e, Gabriela baixou os olhos para não constranger a paciente que sairia escoltada pelos enfermeiros. Só que de repente começaram os gritos:
- Olha ela ali! Olha ela ali sentada! Vocês estão vendo???? Ela! Ela é a assombração que me persegue! - e apontava para Gabriela com terror nos olhos cheios de catarata.
Coração quase na boca, a moça reconheceu aquela pessoa: era a velhota sinistra que vivia aparecendo na sua frente. A velhota continuou gritando:
- Eu não posso ir a nenhum lugar. Ela está sempre lá com essa cara de pateta me perseguindo... no restaurante do meu filho, na faculdade onde dou aula de filosofia, na praia, até na feira essa louca quase me atacou... eu não aguento mais!!!! Eu não aguento maissssssssssssssssssss!!!!!!
Gabriela começou a rir. Riu e chorou muito ali na frente de todos, incluindo o médico. A cabeça parecia que ia dar um nó... então a senhorinha achava que ela era a assombração? Chorava, ria e uivava. Deitou no chão de tanto rir... riu tanto que fez até xixi nas calças.
Acordou no outro dia e sua mãe estava ali ao pé da cama. Tinha sido internada na casa de saúde porque não conseguia mais parar de rir. Tiveram que dar um sossega leão e fazê-la dormir. 
Curiosa, olhou para ver a paciente do lado, já que o quarto era coletivo. 
- Não, de novo não!!! - as duas gritaram ao mesmo tempo, a idosa e a Gabriela. A velha com medo apavorada na outra cama e a moça rindo alucinadamente.
Ambas permanecem internadas, sem previsão de alta.










quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Mães Superproteroras Que Enlouquecem Os Filhos.

Título sugerido por Miucha Bianchi
Texto redigido por Marilia Bavaresco.

Carmela era uma mulher bonita para a sua idade. Desde adolescente era vistosa, morena, alta, lábios carnudos. Casou-se cedo com um rapaz de sua idade e teve três filhos, um após o outro. De personalidade forte, dominou seu o lar e se tornou a chefe da família.
Os filhos cresceram cercados de cuidados até demais. Enquanto as crianças da vizinhança corriam na terra, sujavam os pés, subiam em árvores, os "três mosqueteiros" como eram chamados os rebentos de Carmela, tinham que ficar observando de longe, limpíssimos e imaculados. Se voltassem com um amassado na roupa ou uma mancha que fosse, era um deus nos acuda. 
Para evitar a gritaria e os chiliques da mãe, os meninos cresceram fazendo as coisas escondidos ou evitando atividades mais radicais. Também aprenderam a mentir nas menores coisas porque tinham medo dos castigos impingidos por ela. Carmela por sua vez justificava que era por amor esse tipo de zelo sufocante.
Logo veio a adolescência dos guris e eles começaram a sair com suas turmas e, como não podia deixar de ser, começaram a namorar. 
À primeira vista, quando levavam a namorada em casa, a sogra era bacana, faladora, cheia de histórias dos filhos para contar para as noras. Mas com o passar do tempo Carmela se tornava tão invasiva que ficava insuportável a convivência. 
Não era raro os rapazes se revoltarem com a mãe e brigarem por causa das atitudes de "mamma italiana" dela. Mas como viviam sob o mesmo teto, sustentados pelo trabalho de costureira de Dona Carmela, tinham que se resignar.
Com o passar dos anos o pai faleceu e cada um dos três seguiu sua vida. 
O primeiro que casou teve que aturar os palpites e intromissões da mãe na
igreja, na cerimônia, na decoração da casa. Era comum os marceneiros terem que desmanchar móveis a mando dela e depois terem que repor porque o filho irritado não tinha gostado do que ela fazia. Tanto fez, tanto reinou que o filho teve um acesso de raiva e expulsou Dona Carmela. Disse que na casa dele mandava o casal e que ela, se quisesse, seria visita. Só isso. 
Ela não se deu por vencida. O outro filho estava em vias de casar também. Ela começou a infernizar com a cerimônia, com os convidados, a dar palpite até no vestido da noiva. Só que essa, já prevenida, fingia que escutava os palpites da sogra e fazia o que queria. Depois de casarem, essa nora logo engravidou. A Dona Carmela parecia enlouquecida. Ia umas cinco vezes por dia na casa deles, que também "ajudou"
a decorar. A nora estava perdendo a paciência. Dias depois de ter o bebê, a sogra não fazia menção de ir embora, tudo que a nora fazia não prestava e o que ela dizia é que era bom para o bebê. Num desses dias o filho explodiu e disse para a mãe só ir lá quando fosse convidada. Ela seria vó e não mãe do neto. Eles iam criar o filho, acertando ou errando.
Dona Carmela já estava indisposta com dois filhos, mas ainda tinha o mais novo. Ele, vendo o quanto os irmãos mais velhos tinham penado na mão da mãe, evitava qualquer confronto. Também fazia o gênero de fingir que ouvia mas acabava fazendo o que queria. Acontece que a sua namorada era uma pessoa de personalidade muito forte, talvez mais forte que a personalidade de Dona Carmela. Passado um tempo, o filho e a nora anunciaram o casamento. E desde cedo eles blindaram os preparativos da cerimônia de Dona Carmela que, descontente, começou a falar mal do casal: que seu filho havia embarcado numa canoa furada, que aquela víbora o tinha seduzido, coisa e tal. Isso chegou aos ouvidos deles mas de acordo, não fizeram nada por conta do casório que se aproximava. E a sogra continuava alfinetando, implicando, tentando se intrometer na vida dos dois onde houvesse uma brecha.
No dia da cerimônia Dona Carmela amanheceu infernizando o filho. Fez questão de fazer uns ajustes no terno alugado o qual ela encheu de defeitos por não ter
tido chance de ajudar escolher. Depois, inconveniente como era, deu um jeito de procurar a nora e tentar dar uns conselhos de mãe para "filha". A nora escutou um pouco e pediu gentilmente a ela que saísse que precisava descansar.
Dona Carmela voltou furiosa para casa e disse ao filho que tinha sido expulsa, fez uma tempestade num copo d´água... mas ele já sabia de tudo. Se sentia muito irritado com a mãe, pelo acúmulo de uma vida toda de cerceamento, tolhimento e sufocamento. Ele entendia que era o jeito da mãe, mas não aguentava mais esse tipo de opressão dentro de sua própria casa.
Quando a mãe abriu a boca para continuar suas lamúrias, ele agarrou o pescoço dela. De susto, Dona Carmela teve uma parada cardíaca e morreu subitamente.
Chocado consigo mesmo o filho chamou a polícia e a noiva. Não conseguia parar de chorar. Não conseguia conviver com a culpa. Será que acabaria com a vida da mãe se ela não tivesse tido o ataque cardíaco? Além de ser um filho desalmado seria um assassino também? Surtou e foi internado. Nunca mais saiu do estado de catatonia que o abateu.
A ex-noiva se tornou ativista do grupo MSEF: "Mães Superpotetoras Que Enloquecem Os Filhos", entidade que dá assistência às famílias com problema de relacionamento, especialmente mães e filhos. Todas as noras da falecida Carmela dão palestras sobre o assunto.